Operações financeiras

Inflação x vida real: por que os preços do dia a dia podem subir muito mais do que o IPCA

01 jul 2026 · 7 min de leitura


OPERAÇÕES FINANCEIRAS

Banco Travelex · 01 jul 2026 · 7 min de leitura


A inflação oficial do Brasil, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), fechou 2024 em 4,83%, e apesar do número indicar uma desaceleração em relação a anos anteriores, a percepção dos consumidores é de que os preços do dia a dia aumentaram muito mais.

Embora esteja pouco abaixo da taxa do ano de 2023, que foi de 4,72%, o número ultrapassa o teto da meta estipulada pelo CMN (Conselho Monetário Nacional), fixada em 4,50% com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. 

Essa ultrapassagem reflete grandes desafios para a política econômica do país e isso se deve à influência desigual que os diferentes produtos e serviços exercem sobre cada grupo da população.

Em janeiro de 2025, na 17ª alta seguida, o mercado elevou a estimativa de inflação no ano de 2025 para 5,58%. Entenda como funciona a dinâmica.

Como o IPCA é calculado

O IPCA é um dos principais indicadores do Brasil e monitora mensalmente os preços de 377 subitens em diferentes regiões do país e considera os hábitos de consumo de famílias com renda entre 1 e 40 salários mínimos. Isso significa que ele reflete uma média nacional que nem sempre corresponde à realidade específica de diferentes faixas de renda ou localidades.

O fato de o índice incluir itens como passagem aérea, automóveis e serviços que não fazem parte do orçamento básico da maioria da população também pode distorcer a percepção da inflação sentida no dia a dia.

Alimentação lidera pressão inflacionária

O principal fator de insatisfação dos consumidores em 2024 foi a alta expressiva dos alimentos. O grupo “Alimentação e bebidas” registrou aumento de 7,69% no ano, bem acima do IPCA geral. Dentro desse grupo, alguns itens tiveram elevações ainda mais marcantes como:

  • Carne: +20,8%, o maior aumento em cinco anos;
  • Café: em alta, o que reforça a sensação de encarecimento;
  • Leite e derivados: forte elevação e impactou diretamente o consumo das famílias.

Estudos apontam que a alta dos alimentos tem impacto desproporcional nas famílias de menor renda, que destinam grande parte de seus gastos à alimentação. Enquanto indivíduos com salários mais altos podem diluir a inflação em uma cesta de consumo diversificada, aqueles com menor poder aquisitivo sentem um efeito amplificado.

Diferença entre desaceleração e deflação

Outro fator que contribui para a confusão sobre a inflação é a diferença entre desaceleração e deflação. A desaceleração ocorre quando os preços continuam subindo, mas a uma taxa menor do que anteriormente, enquanto a deflação acontece quando os preços efetivamente caem.

Essa distinção é muito importante para entender a dinâmica da inflação, pois um índice menor não significa necessariamente que os preços estão reduzindo, apenas que estão subindo em ritmo mais lento.

Na prática: veja como fechou a dinâmica dos preços em 2024

Entre os grupos que mais influenciaram o índice no ano de 2024, “alimentação e bebidas” se destacou com uma alta acumulada de 8%. Produtos como óleos e gorduras (20,42%), carnes (19,48%) e frutas (14,18%) também registraram aumentos expressivos. 

Outros grupos também apresentaram grande elevação, como “educação” (6,82%) e “saúde e cuidados pessoais” (6,03%). Por outro lado, grupos como “artigos de residência” (0,83%) e “vestuário” (2,25%) tiveram aumentos mais modestos, enquanto o setor de “habitação” apresentou deflação em dezembro, ajudando a conter parcialmente a inflação do mês.

Apenas no último mês de 2024, o IPCA registrou alta de 0,34%, menor do que a prévia de novembro (0,62%) e de dezembro de 2023 (0,40%). O grupo “alimentação e bebidas” permaneceu como o principal responsável pela pressão inflacionária, impulsionado por itens como óleo de soja (9,21%) e carnes bovinas. Por outro lado, o grupo “habitação” registrou uma deflação de 1,32%, em razão da redução nas tarifas de energia elétrica residencial.

Expectativa dos consumidores e as projeção do mercado

Os consumidores frequentemente percebem uma inflação mais alta do que o índice oficial sugere. Dados da Sondagem do Consumidor do FGV Ibre indicam que as expectativas dos brasileiros costumam ser superiores às previsões do mercado financeiro.

A política de juros altos foi um dos pilares adotados pelo Copom (Comitê de Política Monetária) para conter a inflação. Em dezembro, o Copom elevou a Selic para 12,25% ao ano, com a sinalização de mais duas elevações de 1 ponto percentual em 2025. 

A expectativa é de que a Selic alcance 14,25% em março, um movimento que reflete a preocupação com a convergência da inflação à meta de 3%.

De acordo com o Boletim Focus, elaborado semanalmente pelo BC, a mediana das projeções para a Selic no final de 2025 subiu de 14,75% para 15,00%. Esse movimento foi acompanhado de uma elevação nas projeções para os anos seguintes. Para 2026, a expectativa é de 12,0%, e para 2027, 10,0%.

Inflação nos últimos 10 anos e metas estabelecidas

A inflação tem oscilado significativamente ao longo da última década. Os dados revelam a volatilidade da inflação no Brasil, com picos expressivos, como em 2021, durante a pandemia da Covid-19, e em 2015, em um contexto de crise econômica.

Veja abaixo a evolução do IPCA e as metas estabelecidas para cada ano. 

  • 2024: 4,83% (meta: 3,0%, com tolerância de 1,5 p.p.)
  • 2023: 5,79% (meta: 3,25%, com tolerância de 1,5 p.p.)
  • 2022: 5,79% (meta: 3,5%, com tolerância de 1,5 p.p.)
  • 2021: 10,06% (meta: 3,75%, com tolerância de 1,5 p.p.)
  • 2020: 4,52% (meta: 4,0%, com tolerância de 1,5 p.p.)
  • 2019: 4,31% (meta: 4,25%, com tolerância de 1,5 p.p.)
  • 2018: 3,75% (meta: 4,5%, com tolerância de 1,5 p.p.)
  • 2017: 2,95% (meta: 4,5%, com tolerância de 1,5 p.p.)
  • 2016: 6,29% (meta: 4,5%, com tolerância de 2,0 p.p.)
  • 2015: 10,67% (meta: 4,5%, com tolerância de 2,0 p.p.)

Leia também: Como o IPCA influencia a rentabilidade dos investimentos 

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Fonte: g1

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